quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A influência dos Mercados Preditivos no mundo corporativo

Segue, abaixo, excelente artigo sobre Mercados Preditivos do Bruno Chaves e Alex Sanghikian.
O Bruno é um dos autores pioneiros em escrever sobre mercados preditivos no Brasil.

No artigo que escrevi sobre Mercados Preditivos em 2008 http://inteligenciaempresarial-brasil.blogspot.com/2008/06/mercados-preditivos-uma-ferramenta.html , citei o 1º artigo que o Bruno escreveu sobre o assunto: Mercados Preditivos – o novo aliado das corporações.


A influência dos Mercados Preditivos no mundo corporativo

Ferramenta tem sido utilizada para os mais diversos fins, desde prever o número de vendas em determinado período até a viabilidade do lançamento de um novo produto. Além de citar alguns casos, este artigo também aborda os principais componentes da ferramenta e alguns pontos de atenção para o sucesso na implementação de Mercados Preditivos no mundo corporativo.



Introdução

Qual gestor ou presidente de uma empresa consegue saber a opinião real de seus funcionários sobre qualquer que seja o assunto interno da organização? Não muitos. Afinal, os gestores pouco se utilizam da opinião dos seus colaboradores sobre determinados processos na hora da tomada de decisões. Por outro lado, é sabido que a maioria desses trabalhadores também não expressa abertamente o que pensa ou sabe sobre determinado processo aos seus superiores.
Porém, tal conhecimento pode ser de extrema valia para a empresa.

A pergunta que fica, portanto, é como os executivos podem fazer uso desse conhecimento de modo a auxiliá-los efetivamente na tomada de decisões ligadas a eventos futuros?
Para auxiliar os líderes a tomarem decisões baseadas no que ainda virá a acontecer, companhias investem pesado em departamentos de forecasting, que trabalham a todo o vapor de modo a minimizar os erros de cálculo e tornar as decisões executivas mais escoradas em elementos tangíveis. Tais instrumentos são os mais variados, como método Delphi, pesquisas, análise de cenários, entre outros.

Porém, desde meados dos anos 90, algumas empresas têm feito uso de uma ferramenta que tem como característica a união da opinião dos funcionários aos objetivos de forecasting. Batizada de Mercados Preditivos, ou Mercados Futuros, esse instrumento aparece como um dos mais precisos na atualidade para auxílio à tomada de decisões, segundo dados de empresas líderes de seus segmentos, como Google e General Electric.
Embora ainda incipiente, a utilização dessas ferramentas no mundo corporativo tem sido cada vez mais aderida pelas companhias para os mais diversos fins. Esses exemplos serão discutidos de forma mais ampla adiante.

Conceito e origem

Para quem nunca ouviu falar, os Mercados Preditivos são basicamente bancos de apostas cujo objetivo é prever algo que irá acontecer no futuro. A ideia por trás desta ferramenta vem do conceito publicado pela primeira vez por James Surowiecki, no livro Wisdom of Crowds, de 2004, que reza que a opinião de um grupo grande de pessoas com suficiente diversidade, independência entre si e com descentralização é mais próxima da realidade futura do que a de especialistas no assunto. Segundo o autor, os Mercados não são uma bola de cristal, porém, são quase sempre melhores do que qualquer método de forecasting que existe.
Os Mercados Preditivos tiveram origem a partir dos conhecidos processos do mercado financeiro, em bolsas de valores.

A ideia foi utilizar o mesmo sistema utilizado nos pregões para se obter respostas para as mais diferentes perguntas, seja da área de esportes, política, ou de dentro de uma corporação.

Porém, na prática, qual a diferença entre Mercados Preditivos e mercados financeiros?
A diferença marcante é que nos Mercados Preditivos há sempre uma resposta (ou um preço final) a ser respondido pelos seus participantes. Nas bolsas, por outro lado, o preço de uma ação não tem prazo determinado para chegar a um valor final.

Como funciona?
Porém, como isto funciona na prática? Para traçar uma definição geral do funcionamento de um Mercado Preditivo convencional, se faz necessária a definição dos seguintes componentes:

Tema
É o assunto que será abordado pelo Mercado Preditivo. A partir dessa definição e também do objetivo da análise, é possível formular a pergunta que os participantes irão responder por meio de suas apostas. Vale destacar que a questão deve ser clara de forma a permitir a compreensão de todos sem dificuldades.

Plataforma

Trata-se do ambiente onde os participantes irão interagir. Não é necessário seguir um padrão único para os diversos Mercados a serem realizados. No entanto, o espaço deve disponibilizar as informações básicas para permitir o entendimento do cenário do momento e também a localização do usuário, como a pergunta em questão do Mercado Preditivo, o gráfico de evolução das apostas, além das opções de compra e venda dos contratos.

Moeda

É a unidade de troca utilizada nas apostas realizadas e que pode ser classificada em dois grupos: Moeda real e Moeda virtual.
O primeiro deles é destinado a Mercados onde a aposta é feita em dinheiro real e que geralmente é utilizado em portais abertos na internet e que abordam temas variados como política, esporte e entretenimento.

O segundo grupo é o utilizado também para Mercados Preditivos no meio corporativo. Neste caso, fichas ou dinheiros virtuais são usados para fazer as apostas.

Público

Trata-se dos participantes que podem apostar nos Mercados Preditivos. Para a definição do público é necessário respeitar alguns dos elementos essenciais desse tipo de projeto: diversidade, independência entre si e descentralização.

Contrato

É o lugar onde estão registradas todas as regras de funcionamento do Mercado e que deve ser disponibilizada de forma a permitir que os participantes acessem no momento que precisarem. Em relação às regras de pontuação, os dois tipos de contrato mais utilizados hoje nos Mercados Preditivos são:
• Proporcional – pontuação proporcional à aposta do participante. O nome Linear também é utilizado em algumas ocasiões para referenciar esse tipo de contrato;
• Binário – neste caso, o apostador ganha $1 se sua aposta acontecer ou $0 caso contrário. Este contrato também é conhecido por Tudo ou nada.


Implementação no meio corporativo

As primeiras aplicações dos Mercados Preditivos no meio corporativo ocorreram no final da década de 90. Desde então, sua utilização é crescente por empresas dos mais diversos ramos e para os mais variados objetivos. No entanto, duas questões logo são discutidas entre os executivos, independente da aplicação.

A primeira delas se refere à comparação desta ferramenta em relação a outras de forecasting: “Quais são os seus pontos fortes e fracos?”. A discussão é extensa e, por isso, este artigo não tem a pretensão de esgotar todas as possibilidades. No entanto, a tabela a seguir compila alguns itens que auxiliam na resposta a esta pergunta:





Outra questão muito comum de ser discutida é em relação à implementação da ferramenta nas organizações. “O que deve e o que não deve ser feito para aumentar as chances de se ter sucesso na utilização dos Mercados Preditivos na minha empresa?”. A tabela a seguir fornece algumas dicas básicas, porém, essenciais para o resultado positivo da aplicação.



Casos de uso em empresas

Devido aos resultados gerados e à flexibilidade da ferramenta, organizações dos mais variados setores de atuação já utilizam Mercados Preditivos em diferentes cenários e com objetivos distintos.

Uma das utilizações mais frequentes diz respeito ao uso da ferramenta para gerenciamento de projetos. No Google, a companhia os Mercados desde 2005 para seus colaboradores de forma sistêmica. Entre as diversas aplicações, a empresa faz uso do instrumento para estimar os prazos de projetos, além de quando serão lançados os novos produtos.

Na mesma toada, a Microsoft utiliza Mercados Preditivos para estimar com mais precisão os riscos do projeto. Colaboradores e desenvolvedores apostam sobre o número de bugs que serão encontrados no novo software em desenvolvimento.

Outra utilização usual é em relação ao gerenciamento de produtos. A General Electric, por exemplo, utiliza Mercados Preditivos para o desenvolvimento de novos produtos. Cientistas e pesquisadores da empresa apostam nas melhores ideias pesquisadas para inovações. Quem também faz uso da ferramenta para fins parecidos é a Best Buy. A empresa utiliza os Mercados Preditivos para diversos objetivos, entre eles, estimar a demanda por produtos.

Outra finalidade também comum é o uso da ferramenta para auxílio nas decisões relacionadas a fornecedores e consumidores da organização. A Hewlett-Packard utiliza o instrumento entre seus funcionários com a finalidade de prever em um determinado prazo os preços de commodities estratégicas para a companhia, como, por exemplo, o de microchips. A Arcelor Mittal, por sua vez, utiliza a ferramenta com a finalidade de prever a quantidade de vendas por trimestre, de modo a contribuir para a tomada de decisões estratégicas do setor.

Considerações finais

A utilização de Mercados Preditivos no mundo corporativo é bem diversificada quanto a objetivos e cenários aplicados. Empresas dos mais diferentes setores e com as mais diversas demandas têm aplicado a solução e, de acordo com relatos, vêm obtendo resultados mais precisos e satisfatórios se comparado às outras ferramentas de forecasting utilizadas pelas organizações.

O uso do conceito de “sabedoria das multidões” tem sido cada vez mais difundido no meio corporativo. Um dos exemplos é a expansão da utilização do crowdsourcing nas empresas. Tal ferramenta de inovação, que nasceu a partir dos mesmos conceitos dos Mercados Preditivos, é a prática de usar grupos grandes, bem distribuídos e minimamente direcionados para a realização de determinadas tarefas. Empresas como Dell, Starbucks e Nike criaram recentemente plataformas digitais que permitem que seus clientes criem novos produtos e enviem mensagens com sugestões para novos lançamentos.

Porém, tal corrida por soluções desse tipo pode trazer problemas para as empresas, caso as ferramentas não sejam implementadas com todos os cuidados e precauções necessários para seu uso. O que é notório, no entanto, é que esse tipo de solução é uma tendência que tem se ampliado no mercado mundial, e que apresenta um grande potencial de crescimento também no Brasil. Considerando, portanto, o uso cada vez mais frequente dos Mercados Preditivos em empresas de grande porte em outros países, vale destacar que a tendência é que tais ferramentas comecem a ser aplicadas por mais companhias de diferentes locais, tamanhos e setores.


Fonte: TerraForum, 2009. Autores: Bruno Chaves e Alex Sanghikian.

Um comentário:

Daniela Ramos Teixeira disse...

Olá, veja a contribuição que recebi por e-mail do Claudio Prospero depois que ele leu o artigo sobre Mercados Preditivos.

e-mail Claúdio recebido em 1/9:

Daniela,

Adicionei abaixo dois livros sobre o assunto, um dos quais é citado no artigo.


A Sabedoria das Multidões - James Surowieck
http://www.odebate.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1397&Itemid=41

Com clareza e erudição, James Surowiecki atravessa temas diversos como cultura popular, psicologia, biologia, fundamentos econômicos, inteligência artificial, história militar e teoria política para mostrar como este princípio da sabedoria das multidões opera em nossa realidade, no livro A Sabedoria das Multidões.

Em uma cultura que valoriza o saber especializado e desacredita o poder do senso comum, o autor explora em A Sabedoria Das Multidões uma idéia simples com profundas implicações: grandes grupos agem de forma mais inteligente que especialistas, não importa o quão brilhantes, capacitados a apresentar soluções e produzir inovações esses se mostrem. Essa tese, que contraria nossas intuições mais arraigadas, apresenta variadíssimas ramificações com influências na operação dos mercados financeiros, no progresso científico, na organização da economia ou na forma como lidamos com nosso cotidiano.

Segundo o autor, com a sabedoria dos grupos conquista-se diversidade de opinião; independência; descentralização e um bom método para agregar informações. Para fundamentar sua proposta Surowiecki explora problemas que envolvem cognição (estamos sempre procurando identificar a resposta correta); coordenação (precisamos sincronizar nossas ações individuais com as de outros) e cooperação (precisamos agir coletivamente apesar de nossos interesses particulares).

Assim, essa investigação aborda uma variedade de aplicações simples e complexas, que inclui driblar engarrafamentos, competir em quiz shows de TV, eleger candidatos em campanhas políticas, mapear vírus e projetar ferramentas da internet como o Google. O resultado é um intrigante e original panorama sobre a inteligência coletiva e seu funcionamento na sociedade contemporânea.


O Poder das Multidões - Jeff Howe
Por Que A Força Da Coletividade Está Remodelando O Futuro Dos Negócios

Howe, Jeff


ISBN: 9788535231519
Publicação: 2009
Editora: Campus (clique para ver outras publicações da editora)
Páginas: 280



Identificado pela primeira vez pelo jornalista Jeff Howe em um artigo de junho de 2006 da revista Wired, o termo crowdsourcing descreve o processo pelo qual a força de muitos pode ser alavancada para realizar proezas antes restritas a seletos grupos de especialistas. Howe revela que a multidão é mais do que inteligente é talentosa, criativa e espantosamente produtiva. O crowdsourcing ativou o poder transformador da tecnologia moderna, liberando o talento latente dentro de todos nós. Mas também desencadeou uma drástica mudança na organização do trabalho, no emprego de talentos, na realização de pesquisas e na produção e comercialização de produtos. À medida que a multidão substitui as formas tradicionais de mão-de-obra, sofrimento e confusão são inevitáveis. Neste livro, Jeff Howe aprofunda-se tanto nas conseqüências positivas quanto nas negativas desse intrigante fenômeno. Com extensa reportagem que aborda desde as linhas de frente da revolução, o autor usa uma brilhante série de histórias para analisar as implicações econômicas, culturais, políticas e comerciais do poder das multidões.


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Atenciosamente.
Claudio Estevam Próspero

http://pt.wikipedia.org/wiki/Usuário:ProsperoClaudio (Apresentação pessoal)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Aliança_para_uma_Nova_Humanidade
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecocidade
http://www.criefuturos.com.br/criefuturos.html
http://www.nef.org.br (Núcleo de Estudos do Futuro)
http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/
http://www.portalsbgc.org.br/sbgc/portal/ (Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento)


Claudio, obrigada mais uma vez pela valiosa contri~buição.

abçs Daniela R. Teixeira