domingo, 3 de maio de 2009

Cadeias de conhecimento: dutos para a inteligência coletiva

Este artigo do amigo Sérgio Storch aborda o conceito de Cadeias de Valor de forma ampla e inteligente.

O Sérgio conseguiu juntar Conhecimento, Inteligência Coletiva, Raul Seixas, Milton Nascimento e ainda abordar a importância do conhecimento chegar até o ‘Josevaldo’, plantador de maçãs no interior de SP, quer seja por Cadeias de Valor, Redes de Valor, Inteligência Coletiva etc.

O nome disso realmente não importa muito. O que realmente está em jogo é como fazer essa rede funcionar e trazer resultados.

É para isso que tem tanta gente trabalhando e estudando esse assunto, inclusive eu com o Método REVIE (Rede de Melhores Práticas para MKT e Vendas).
Esse artigo tem tudo a ver com o eixo Inteligência de Parceiros do Método REVIE e com essa visão macro de Redes de Valor.

Recomendo a leitura para quem ainda não teve a oportunidade de ler. E para os que já leram, este assunto, além de interessante, é atual, apesar deste artigo ter sido escrito um ano e meio atrás.

SDS,

Daniela Ramos Teixeira


Cadeias de conhecimento: dutos para a inteligência coletiva

Sérgio Storch


Se existem tantas boas iniciativas para fazer setores produtivos avançarem, por que seus resultados são sempre limitados? A resposta pode estar na utilização do meio digital para criar dutos e cadeias de conhecimento.

"Todo jornal que eu leio
me diz que a gente já era,
que não haverá primavera.
Mas baby, oh baby,
a gente ainda nem começou."

Raul Seixas


Você sabia que o Brasil é o terceiro maior produtor mundial de frutas? E que 95% do seu consumo ainda se destina ao mercado interno? Sabia que 92% de toda uva "in natura" exportada pelo País sai de Petrolina? E você sabia da existência de um tal Sistema de Produção Integrado de Frutas (PIF)? É um "projeto do Ministério da Agricultura que agrega tecnologias sustentáveis que racionalizam a atividade, reduzindo o uso de fertilizantes e defensivos, monitorando o uso da água, do solo, do meio ambiente, inclusive no pós-colheita, regulando todos os passos da produção, de modo a permitir a rastreabilidade e certificação."

E daí? O que isso tem a ver com a gestão do conhecimento?

Sempre vivi em prédios, e tenho medo de cobra. Sou estranho ao mundo da agricultura. Porém, fui profundamente impactado pelo artigo ” Fruticultura, uma nova fronteira para exportação “, de Roberto Rodrigues (Gazeta Mercantil, 16/11), pelas reflexões que me provocou sobre o novo mundo a ser desbravado na construção da inteligência coletiva. Precisamos dramaticamente dela para driblar a contagem regressiva do apocalipse que tivemos a competência de construir no planeta.

Você e eu fomos pegos há algumas semanas pelo susto do leite contaminado. Acusações para todo lado. Ao mesmo tempo, milhões de agricultores e consumidores são contaminados a cada dia por agrotóxicos. Pois veja o que diz o artigo: "Estima-se que a economia com a redução do uso de fertilizantes em maçã chegue a 40%. Em uva de mesa, calcula-se que, de 2005 até agora, a redução do uso de fungicidas foi de 42%, o de acaricida foi de 89% e o de herbicidas, 100%! " Podemos, como consumidores, fazer que isso aconteça mais rapidamente? Podemos.

Mas o artigo lembra a famosa máxima de Lew Platt, CEO da HP: "Ah, se a HP soubesse o quanto a HP sabe, seríamos muito mais lucrativos". Se os fruticultores soubessem o quanto a fruticultura brasileira sabe, teríamos mais e melhores alimentos. Se todos os pais soubessem o quanto a educação brasileira sabe, teríamos um povo muito mais preparado. Se os prefeitos e síndicos soubessem o que Bogotá sabe sobre prevenção da criminalidade, não estaríamos comprando Insulfilm e nos insulando em condomínios fechados. Tudo seria tão melhor, e tantos PIBs e empregos a mais seriam gerados se soubéssemos o que sabemos.

Há um pó de pirlimpimpim para isso? Não. Vamos sair da idéia romântica e voluntarista de que somos todos irmãos e que precisamos aprender a compartilhar conhecimento. Como se a egocompetitividade que nos é inculcada todos os dias não existisse. E vamos também não levar demasiadamente a sério as fábulas da Web 2.0, que insistem que tudo se resolve, agora que todos podem falar com todos, e todos podem publicar o que pensam. Será que quem precisa ler lerá?

Não, está tudo por fazer. Voltando ao PIF e à fruticultura. O conceito já consagrado do ciclo de difusão da inovação (veja mais no gráfico abaixo) nos faz ver que a existência do conhecimento não é suficiente para que exerça seus benefícios. Ele precisa ser difundido, assimilado e adotado. A curva da difusão da inovação, por outro lado, não é uma lei divina: ela pode ser acelerada.





Eis o desafio: o que fazer para reduzir a demora natural dos sistemas sociais em adotar as inovações?

O artigo da Gazeta Mercantil me levou a imaginar o conceito de Cadeias de Conhecimento. Imaginei e voltei ao PIF. Fui ao oráculo. Googlei "pif fruticultura". E vi links para o MAPA (Ministério da Agricultura), Embrapa, Unesp de Jaboticabal, Profruta, Sebrae de Minas Gerais, rabichos de informação num glossário do Sebrae de Tocantins, Instituto de Defesa do Consumidor (conteúdo excelente!). Coloquei-me na posição do Josevaldo, plantador de maçãs no interior de SP, e fucei, fucei, fucei. Dos 10 links do Google, aqueles que, sei lá, 1% dos internautas ultrapassam, encontrei apenas um que me deu dicas realmente úteis, e mesmo assim forçando um pouco a barra, pois o artigo (de 2005) não era para mim e sim para atacadistas: “A PIF como solução para o atacadista"

Lembrei-me da história de como as ferrovias nos EUA foram surgindo devagarinho, cada uma ligando 2 cidades, gerando especulações e falências, até que as pequenas ferrovias começaram a se conectar. Num dado momento alguém teve a genial idéia de criar bitolas padrões para os trilhos e, num processo conturbado de empreendedorismo, fusões, golpes financeiros e criação de padrões (e, claro, não faltou a corrupção , daquelas de humilhar a nossa), eis que surge a rede ferroviária, base da revolução agrícola no século 19, que fez do Oeste americano o celeiro do mundo. Assim caminha a Humanidade, diria Hollywood.

Este bonde nós já perdemos, com o rodoviarismo. Mas há os bondes de nosso século. Agora temos pedacinhos de conhecimento que precisam se conectar numa grande cadeia que leve as novidades do PIF para o Josevaldo. Não basta os serviços de extensão rural, que também não sabem o que sabemos. Nem os milhares de gerentes de agências do BB e de consultores do Sebrae. Nenhum deles sabe tudo que sabemos. É preciso construir os dutos da inteligência coletiva, que transportem a descoberta da Embrapa para o Josevaldo e o acompanhem até dar certo. É o que estou chamando de Cadeias de Conhecimento. Sim, no sentido de cadeia produtiva, cadeia de suprimentos, cadeia de valor. Mas poderíamos chamar de qualquer outro nome. O importante é o processo de bombeamento e assistência que leve uma descoberta da Embrapa e o telefone do exportador até o Josevaldo usar. Nenhuma instituição sozinha é capaz de fazer isso, se não se organizarem em cadeias, por um lado, e se não tivermos o fluxo nessas cadeias funcionando através de redes sociais: pessoas que se conhecem e se comunicam.

Ah, se o Josevaldo Secretário de Segurança Pública soubesse o que Bogotá e a nossa São Carlos (SP) já sabem sobre prevenção da violência urbana!
Pois é, acredito ser este o desafio desta geração (ou seja, 3 décadas): construir as cadeias de conhecimento e fazer a inclusão do Josevaldo nessas cadeias - bem mais do que inclusão digital - através de uma rede social que chegue pulsando até ele. É, o grande empreendedorismo nas organizações e na sociedade é preciso.

Acho que este é o grande desafio da gestão do conhecimento: bicar por dentro a casca do ovo, tal qual o Abraxas de Herman Hesse, e peregrinar pelo ecossistema de cada empresa ou instituição, construindo as cadeias de conhecimento que precisamos. Mais que construir redes: é a rede e mais a bomba que tira o conhecimento do berço esplêndido e o faz fluir através do duto. Tudo por fazer: processos, negociações, direitos autorais, parcerias, evangelização, cultivo, gestão...

Iniciei com Raul Seixas e termino com Milton Nascimento: para a inteligência societal, não basta simplesmente compartilhar. Todo artista tem de ir aonde o povo está. Em tempo: o que tudo isso tem a ver com intranets e portais? Sócrates responderia com outra pergunta: afinal, se não for para isso, para que servem mesmo intranets e portais?

SOBRE O AUTOR: Sérgio Storch é consultor associado à Plena Consultores, sócio-diretor da Content Digital e presidente do pólo SP da Associação Brasileira de Gestão do Conhecimento (SBGC) . É Engenheiro de Produção (Escola Politécnica da USP) e Mestre em Administração (MIT - Massachussetts Institute of Technology). Foi consultor do Gartner Group, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Foi também Diretor na Hewlett Packard e Diretor de Informações da Empresa de Planejamento Metropolitano da Grande São Paulo (EMPLASA). Atualmente vem desenvolvendo trabalhos em gestão de mudança e governança de portais e intranets.


Fontes:

http://sergiostorch.com/


http://www.intranetportal.com.br/e-gov/SStorch-1207

Um comentário:

Claudio Estevam Próspero disse...

postado em http://escoladeredes.ning.com/profiles/blogs/knowledge-chain-desafio-desta

Knowledge Chain ... Desafio desta geração ?
Postado por Claudio Estevam Próspero em 4 maio 2009 às 23:59


Obrigado a Daniela por provocar nova leitura do artigo indicado.

Concordo que o assunto além de interessante continua atual.

Como podemos enfrentar o desafio, aproveitando suas oportunidades?

Ressaltei, em italico, o primeiro negrito (da Daniela) e mais alguns pontos do artigo.

Quem se habilita?

Mais uma oportunidade para a Escola de Redes?

Obs.: Traduzi o assunto para Inglês, usando o Princípio exemplificado em: "Agronegócio não tem o mesmo apelo, no Brasil, que Agribusiness." João Cândido Saraiva, coordenador do MBA em Sea Business

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Atenciosamente.
Claudio Estevam Próspero

http://pt.wikipedia.org/wiki/Usuário:ProsperoClaudio (Apresentação pessoal)
http://escoladeredes.ning.com/ (Escola de Redes [E = R])
http://pt.wikipedia.org/wiki/Aliança_para_uma_Nova_Humanidade
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecocidade
http://www.criefuturos.com.br/criefuturos.html
http://www.holos.org.br/cursosetreinamentos/ (HOLOS - Coaching e Mentoring)
http://www.nef.org.br (Núcleo de Estudos do Futuro)
http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/
http://www.portalsbgc.org.br/sbgc/portal/ (Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento)